Todo Réveillon a gente faz promessas de alcançar objetivos e ser uma pessoa melhor. Veste branco, abraça os amigos, brinda ao futuro. O ano começa e… Deixa as mudanças para depois do Carnaval. A folia termina. Mas ainda tá muito cedo para praticar alguma ação. E as desculpas são infinitas até a próxima celebração de esperança, não é?

Para mim, era exatamente dessa forma até 2017 chegar e me sacudir por inteira. Conheci a história de Bhagavad Gita. E agora, a vida parece assustadoramente mais clara e interessante. Compartilho contigo minhas descobertas.

Bhagavad Gita significa “Sublime Canção” e é uma das obras mais importantes da humanidade. O texto foi escrito por volta 400 a.C. É um trecho da bíblia do hinduísmo, Mahabharata. Alguns consideram uma narrativa religiosa, outros como estudo filosófico e há quem acredite ser um dos registros históricos do Oriente.

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Uma família está em guerra. Primos de primeiro grau brigam pelo reinado da cidade de Hastinapura. Formam-se dois exércitos, os Pandavas (mocinhos) e os Kuravas (vilões). Até aqui está quase um filme minguado da Sessão da Tarde, mas saiba que a proporção era de 5 guerreiros contra 100. E aí começa a esquentar.

Todos em posição, a luta vai começar. Mas ops… Calma. Arjuna, o arqueiro e príncipe dos bonzinhos Pandavas, pede para ser conduzido até o meio do campo de batalha pelo mestre Krishna. Ele quer ter noção do tamanho do inimigo e do que enfrenta realmente.

Ao olhar para os dois lados, Arjuna percebe que a parte do adversário é composta por membros da família, amigos, conhecidos, pessoas admiráveis. Como assim? Como atirar a flecha contra os próprios parentes?

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O corpo do príncipe treme, as pernas paralisam, o arco escorre das mãos. Krishna explica o sentido dessa luta, mostra que é uma guerra dentro do próprio Homem, entre o aspecto superior e inferior. Representa as nossas batalhas mentais, como aquelas que a gente tem que ganhar todos os dias para vencer a preguiça, o egoísmo e a raiva. Sabe?!

Depois de muito resistir, Arjuna decide começar a guerra, preparar o arco e seguir em frente. Ele vence.

Fim.

Todo o livro é o diálogo poético entre o mestre e o discípulo, e a cena é como se passasse em um único instante fora do tempo cronológico. O simbolismo foi surpreendente para mim.

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Arjuna sou eu, é você, o incansável buscador de um caminho. Os Pandavas, ao nosso lado, são as virtudes. Poucas, podemos contar nos dedos. Elas enfrentam diariamente os Kuravas, centenas de defeitos e vícios. É a famosa batalha da vida mais saudável contra aquele pudim suculento na geladeira. Ou a preguiça de acordar domingo de manhã para fazer uma boa ação. A raiva despejada nos comentários das redes sociais. A inveja da conquista do amigo. A ira quando você é fechado no trânsito. A língua que coça para falar mal do chefe e da vizinha.

O mais revelador foi perceber que amo meus defeitos e, por isso, é tão difícil me livrar deles. Quando Arjuna vê pessoas queridas como inimigos, ele resiste. São os vícios, os quais nos satisfazem momentaneamente, dão prazer: aquela mordida no bombom durante a dieta… O “só dessa vez eu vou ficar dormindo”, o virar as costas quando te pedem ajuda, a procrastinação em fazer o que precisa ser feito. Estamos apegados ao nosso pior lado e perdemos a chance de enxergar novas possibilidades.

Os Pandavas são as forças positivas, aquele sussurro de: “Não faz isso. Vai dar confusão. Veja por outro lado. Tenha paciência e fé. Acredite em você. Você consegue”.

Temos apenas duas escolhas: para cima ou para baixo; espírito ou matéria; bom para todos ou bom só para você.

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Tem a ver com evoluir. Por isso, na história, eles brigam pela dominação de Hastinapura, que significa “cidade do elefante”. Esse animal representa a sabedoria na Índia, porque tem grande força e, ao mesmo tempo, delicadeza. Dizem que apesar do tamanho, ele se desvia do caminho para não pisar nas formigas.

Maior que a conquista em batalha de mil homens mil vezes é a conquista de si mesmo” — Buda.

Cada ser humano é, em certa medida, Arjuna, um guerreiro que tenta conquistar virtudes. E Krishna é o melhor dentro de nós. Huhu (um cisco caiu no meu olho…). Estou pedindo arrego, mas tem mais.

Bhagavad Gita me apresentou sete lições:

  • Chega de se vitimizar e transferir a culpa do que acontece de ruim na vida para outra pessoa. Seja responsável, caramba. A dor, o Karma, é apenas o veículo da consciência, é um tapinha para gente ir para o caminho certo.
  • Aquilo que é nunca deixa de ser. Se você perdeu o emprego, o marido te deixou, um amigo se afastou. Não era para ser seu. O que importa é o eterno (impactante, hein?!).
  • O que é real é a maneira como lidamos com as coisas. O restante é ilusório.Então, use boas intenções em tudo o que fizer, isso é mais importante do que os frutos que resultam dessa ação. É a máxima: “Fazer o bem sem saber a quem”.
  • Cuidado com os pensamentos. Eles estão em constante movimento e podem somar ou subtrair nos seus resultados de evolução.
  • Krishna disse: A inatividade não leva à perfeição. Como ser bom em alguma coisa? Treino. Treino. Treino. Não há atalho. Não há religião ou curso algum que vai te transformar se você não colocar a mão na massa. Faça.
  • A decisão de ser melhor é sempre nossa. Não tem a ver com a circunstância.
  • A batalha está ganha. A natureza não falha. Decida o que quer, trabalhe para chegar lá. A vitória vem.

Este ano será diferente de todos os outros, porque quero que a ação e a resiliência sejam mandamentos na minha vida — apesar dos tropeços. Que venham as batalhas diárias e muitos tiros de flecha.

Como foi para você? Quais são seus exércitos de Kuravas e Pandavas?


Bhagavad Gita é uma obra rica e complexa e eu não cheguei nem perto de todas os aprendizados que ela tem a oferecer. Vai aqui um agradecimento especial à Carina Frota e Júlia Rezende, professoras da Nova Acrópole, pela generosidade em compartilhar a história comigo.


vemachado
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Verônica Machado foi repórter da Câmara dos Deputados e do Correio Braziliense. É jornalista e trabalha há 7 anos com Marketing Digital. Empreende na loja de pratos congelados Delícia Pronta, no projeto de histórias Vidas Contadas e no projeto de educação Jornalista 3.0. Neste último, oferece oito cursos digitais para comunicadores. Lidera uma comunidade de 500 jornalistas engajados em colocar projetos digitais no ar. Em quatro anos, foram 90 ideias concretizadas no Brasil e no exterior. Tem o próprio método de mentoria online, uma agência de mídias sociais e o clube de assinatura de conteúdo, o Clube de Realizadores. Como posso te ajudar?